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Não conhecemos verdadeiramente as coisas, apenas a superfície delas

   Parece um tanto quanto pessimista alegar tamanha limitação no que diz respeito a como conhecemos as coisas, talvez até mesmo desconfortável, afinal desloca uma certeza quase automática de que pelo menos sobre as coisas com as quais temos contato, temos também a propriedade para afirmar conhecê-las. Desse modo, no momento em que questionamos tal garantia, o chão que pisamos subitamente demonstra rachaduras, a partir das quais podemos, quem sabe, ver um pouquinho além, de uma forma um pouco mais intima para tudo aquilo que antes, desatentos, julgávamos conhecer.

  Certamente pegar essa linha de reflexão poderia incorrer em inúmeras discussões epistemológicas, uma vez que poderíamos colocar em pauta o racionalismo, o empirismo, o idealismo, o realismo, bem como analisarmos nossas condições de conhecimento, nossas faculdades cognitivas de um ponto de vista científico. Entretanto, o atalho é modesto, mas bastante atento aos detalhes da estrada, uma vez que a proposta é pensar nossa relação diante de tudo aquilo que nos cerca de forma e prática e direta, levantando suspeitas sobre o modo mecânico frequentemente assumido pelo distanciamento de nossas consciências.

  Evidentemente, não há qualquer valor moral nessas constatações, haja vista que muitos fatores influenciam negativamente para que nosso contato seja infinitamente inferior ao que poderia ser, principalmente em tempos nos quais há tanta abundância de informações, porém o ponto é que se tivermos mais consciência sobre o que temos o que não vemos, talvez possamos assumir maior vigilância ao dedicarmos nossa atenção às coisas, bem como talvez possamos ampliar nosso contato com as mesmas, desenvolvendo mais cautela em assumir dogmaticamente o conhecimento de algo, gerando mais insatisfação com o que sabemos e consequentemente mais busca. Em última instância, poderá ser um excelente método para ampliarmos nossos horizontes, considerando que se tivermos em mente que mesmo sobre aquilo que julgamos conhecer, há muito que não conhecemos, podemos aceitar o convite para olhar mais profundamente para determinada coisa.

   Um elemento bastante nítido para exemplificar o ponto são as músicas; quando as ouvimos, escutamos o conjunto dos instrumentos, mas em cada instrumento isolado há algo de novo a ser descoberto. Se eu lhe perguntar se você conhece a canção “Sweet Child O’ Mine” da banda Guns n’ Roses, você provavelmente responderá que sim, e não há problemas nisso, porém talvez você a escute e perceba que há muito nela que você ainda não conhece. É certo que esse exemplo pode parecer bobo, se comparado à tantas outras coisas que absorvemos diariamente, porém a música é algo extremamente rico, cuja riqueza frequentemente perdemos ao ouvi-las apressadamente, desatentamente, mas experimente deitar e ouvir as mesmas músicas que você ouve indo para o trabalho, perceberá que há uma imensidão encoberta pela superfície que você conhecia.

   O mesmo acontece com os livros e com os filmes que ao revisitá-los, você percebe coisas que antes não fazia ideia. O mesmo acontece com as ruas, quando você se depara com um prédio antigo que sempre esteve ali e você nunca notou o relógio parado em seu topo.

 Mesmo nas coisas mais simples, há sempre algo a mais ser visto.


Isadora Tabordes

Isadora Tabordes

Cofundadora e desenvolvedora dos sites Vida em Equilíbrio e Demasiado Humano. Graduada em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas. Atualmente é mestranda em Filosofia Moral e Política pela mesma universidade.  "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é... E se soubessem quem é, o que saberiam? Fernando Pessoa

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