Psicologia

O maior presente que podemos entregar para os nossos filhos é a nossa própria felicidade

Os profissionais, muitas vezes, quando se propõem a apresentar a escola para uma família enfocam os aspectos metodológicos aplicados no contexto educacional. Os pais demonstram satisfação ao serem sanadas tais questões e logo partem para o conhecimento dos aspectos mais práticos envolvendo a dinâmica escolar, o que inclui o horário de funcionamento da escola, a oferta de lanches e a grade das disciplinas. A preocupação prioritária em torno dessa conjuntura, encoberta o seguinte questionamento: qual a finalidade desse projeto educacional? Ou seja, a aplicação de tais metodologias irão conduzir o meu(minha) filho(a) para onde? Qual o ser que se idealiza formar mediante essas práticas educativas?

Vale ressaltar que a metodologia se refere a um conjunto de técnicas e meios necessários para a execução de determinados procedimentos com o objetivo de facilitar a organização do ambiente escolar. Contanto, deve-se ter o cuidado para que não prevaleça a tecnificação das relações, desconsiderando-se o viés subjetivo de cada ser e as suas correspondentes necessidades individuais. Infelizmente, o ponto crítico que se enfrenta, hoje, é a percepção de que não são todos os métodos educacionais que se debruçam sobre as questões filosóficas da existência e apuram o seu interesse nos fundamentos do sentido da vida humana.

A educação serve ao propósito de extrair o que há de melhor dentro de cada ser. Necessariamente, contempla o sentido que carrega consigo acerca da sua própria existência. Todo o ser humano tem o material interior que precisa para que se realize ao longo da vida. A educação, então, surge como mediadora desse processo, visando facilitar a jornada formativa do indivíduo. A essência humana esconde, portanto, o seu vir a ser. Já parou para pensar o quanto de si você está revelando? Será que a parte que você se propôs a explorar ainda é pequena? Demonstra estar satisfeito(a) com o que até então alcançou de si, ou traz consigo a inquietude de querer superar a si mesmo, a cada dia?

O autoaprimoramento envolve a responsabilidade de se comprometer consigo com o fim de atingir resultados cada vez melhores. A palavra responsabilidade sugere a capacidade de oferecer uma resposta. Constata-se que na prática do cotidiano, muitas pessoas não estão dando conta de responder às suas próprias necessidades. Cada vez mais se percebe que o ser-humano está parando de ouvir a si mesmo. Esse comportamento que se observa, inclusive, nos pais é extremamente crítico, pois aqueles que deveriam ser os responsáveis por garantir uma educação de excelência, estão perdendo a sensibilidade de perceber quais são as necessidades dos seus filhos, bem como a de explorar quais as ferramentas de cuidado que podem ser aplicadas com o intuito de protegê-los.

A leitura de mundo que a criança faz do seu entorno ocorre mediante as mensagens que são propagadas pelos seus pais. Se as mensagens transmitidas não são adequadas, as crianças passam a interpretar a realidade a partir de bases distorcidas. Por exemplo, os pais que demonstram uma ansiedade exacerbada e uma pressa descontrolada para resolver os desafios do cotidiano, podem gerar no íntimo dos seus filhos uma sensação de angústia e insegurança. Deste modo, os pais para resolverem esse problema não devem recorrer às técnicas que visam aplacar o sofrimento das crianças; do contrário, deverão encontrar meios para refletir sobre a sua própria ansiedade. Primeiramente é necessário a resolução dos conflitos consigo mesmos para depois ser abordado a mudança do comportamento dos seus filhos.

Portanto, os adultos precisam estar emocionalmente disponíveis para o cuidado das crianças. Muitos pais se queixam que têm pouco tempo para passar ao lado dos seus filhos devido as atividades de trabalho. Contudo, o tempo que dedicam para estar com eles poderia ser melhor aproveitado se estivessem plenamente atentos em relação ao seu cuidado naquele breve momento. Na realidade, o que se percebe, muitas vezes, é que os pais compartilham a sua presença física com as crianças, entretanto, os seus pensamentos e sentimentos estão distantes, sobrecarregando-se de preocupações do cotidiano. A criança, valendo-se do mecanismo intuitivo que lhe é inerente, faz uma leitura rápida e direta do estado emocional apresentado. Consegue distinguir, desta forma, se o adulto está realmente presente com ela no dado momento. Se o mesmo estiver de corpo e não de alma, o infante corre sérios riscos de enfrentar a solidão, o que abre as portas para o desenvolvimento de transtornos psicoemocionais que podem se estender para a idade adulta.

Com o objetivo de suprir esta carência no cuidado e não assumirem as próprias faltas pertinentes ao processo de educar, os pais desesperadamente recorrem a tecnificação que permeia o ambiente escolar, aliviando-se do peso da culpa que carregam sobre as costas. Torna-se mais fácil tentar ajustar a criança a uma determinada metodologia de ensino com o intuito de corrigir supostas faltas do seu caráter do que propriamente estabelecer mudanças na rotina da dinâmica familiar.

O respeito às necessidades da criança é fundamental no ato de cuidar. O diálogo é uma das pontes de contato para a formação do vínculo. Dialogar consiste em expor o conflito, esmiuçando-o com o maior grau de clareza na tentativa de resolvê-lo adequadamente. A partir da confiança que se estabelece entre ambas as partes, a criança encontra nessa relação um espaço seguro onde poderá compartilhar as suas inseguranças sem o temor do julgamento.

Certa vez, um monge budista disse para os seus discípulos:

“O maior presente que podemos entregar para os nossos filhos é a nossa própria felicidade.”

Em geral, quando os pais pensam em fazer algo de bom para os seus filhos, na mesma hora lhes vêm à mente dar algo para eles. Esta postura é elogiável e merece ser posta em prática, contudo ainda melhor do que doar presentes para os mesmos se destaca o ato de doar a si mesmo. E os adultos podem praticar esta ação buscando desenvolver melhor o seu interior, criando um ambiente feliz para recepcionar os seus filhos, bem como por meio da análise de quais são as atitudes imaturas que ainda adotam nas relações familiares, debruçando-se, deste modo, em torno dos possíveis modos de resolução de tais conflitos. Ao vivenciarem o estado de paz íntima podem, por consequência, contagiarem os seus filhos com a amorosidade no cuidado, enchendo-os de plena vida e saúde.


Saulo de Oliva

Médico, psicólogo, educador. Especializado em Psiquiatria e Psicologia Analítica.

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