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Love as a service (LAAS)

Já não é novidade que as pessoas estão mudando radicalmente seus hábitos de consumo.  A propriedade vai, pouco a pouco, deixando de interessar a todos. No meu trabalho, respiro essa tendência no meu dia-a-dia. Estamos migrando velozmente de um negócio de venda de software perpétuo para um modelo de assinatura, o famoso software as a service (SAAS), e os paralelos PAAS*, IAAS*, WAAS*, etc.  Apesar da indústria de tecnologia ter sido uma das precursoras neste modelo de negócios, este é um movimento bastante claro em absolutamente todos os segmentos.  Muitas pessoas já não sonham mais com uma casa no campo ou então na praia, por exemplo – querem apenas usufruir do ar puro e da tranquilidade quando tiverem vontade.  Muitos não querem mais o custo do IPVA, do seguro, da gasolina e do estacionamento, se um carro igualmente confortável puder levá-los para onde precisam ir.  Profissionais de saúde não precisam mais investir os tubos em consultórios de última geração quando podem sublocar espaços e focar no seu aprimoramento como dentistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, sem perderem os fios de cabelo administrando seus espaços. É um caminho sem volta pois é uma alternativa que costuma fazer sentido economicamente, ecologicamente e socialmente. É sustentável, inteligente e a lógica é bastante compreensível:  não precisamos do produto, apenas do acesso ao benefício que ele nos oferece.

Apesar de parecer um ajuste simples de mentalidade, trata-se de uma transformação cultural bastante ampla e profunda.  Uma transmutação tão extensa e revolucionária que anda impactando áreas da vida que nada tem (ou nada deveriam ter) a ver com consumo. O sociólogo Zygmunt Bauman ficou famoso por difundir o conceito da “modernidade líquida” que fala da fragilidade e do afrouxamento dos laços humanos. Passando do linguajar filosófico aos jargões do MBA, acredito que o seu “amor-líquido” poderia ser traduzido como “love as a service”, o amor em um modelo de subscrição! Feito sob medida para as pessoas que não estão mais tão preocupadas com o ser amado, e sim, com a sensação e os benefícios que o relacionamento lhes oferece. Não querem mergulhar no universo do outro.  Imergir nos seus gostos, nas suas fragilidades, entender suas raízes.  Para quê?  Nesse modelo de amar, enxerga-se o outro prioritariamente como um espelho de si mesmo. “Te amo porque ao seu lado me sinto interessante, radiante e desejado”.  Quando o sentimento esvanecer ou o olhar desgastar, basta deslizar a tela e encontrar outro ou outra que possa entregar a mesma sensação.

Há algo de atraente nesta leveza (ou nesta liquidez), mas acredito que o modelo de assinatura não funciona para os assuntos do coração e da alma.  Concordo que a posse é ainda mais catastrófica nessa seara e tampouco acredito no paradigma da perpetuidade.  A vida está cada vez mais longa, e é totalmente plausível termos mais de um amor verdadeiro e diferentes relacionamentos ao longo da estrada.  Meu ponto é que quando falamos de amor, não há como escapar do mergulho profundo e de cabeça, independente de quanto tempo ele durar.  Evitar o pacote completo é perder justamente a graça da coisa.  O contraponto das relações afetivas é que a intimidade só acontece quando a pessoa passa a refletir não apenas nosso encanto, mas também nossas chatices, esquisitices e nossa vulnerabilidade. Dar match pode ser sublime, mas para construir uma relação verdadeira, não há como esquivar-se da manutenção, do investimento e é preciso dispor-se a comprar o produto integral e não apenas seus benefícios!

*Platform as a service; Infra-structure as a service; Windows as a service.

 

Por Shelly Zaclis Bronstein – Autoterapia

 


Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein

Shelly Zaclis Bronstein escreve crônicas e poemas, é autora do livro Autoterapia e trabalha como executiva de marketing de uma grande multinacional na área de tecnologia. Mora em São Paulo, é casada e mãe orgulhosa do Felipe e da Camila.

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